terça-feira, 4 de agosto de 2009

Um dia em que eu, talvez, cante...


Que eu não cante somente ao ver algumas árvores cobertas de frutos perfumados no verão; mas que eu cante, também, ao vê-las todas nuas, devastadas por prolongadas secas ou por pragas.

Que eu não cante somente quando alegria, paz, beleza e amor encherem meus olhos, coração e vida; mas que eu cante, também, quando eu sentir que um deserto se abriu no meu peito e em todas as vezes que parecer que uma noite se estagnou bem no fundo da minha alma.

Que eu não cante somente quando meus pés caminharem entre flores e eu sentir que vicejo num jardim, ofertando perfume aos meus amigos, meus irmãos; mas que eu cante, também, quando o insucesso, a dor, a ingratidão varrerem do meu caminho todas as flores e o deixar eriçado só de espinhos.

Que eu não cante somente na áurea juventude dos meus anos quando me sinto como uma ave, na doce liberdade de pairar por cima das belezas da existência; mas que eu cante, também, quando se forem as aves e as belezas e eu sentir o inverno, em solidão de ventos frios...

Mais do que nunca, então, farei com que eu sinta, em minha fronte, o sopro cálido de um sereno e imenso amor de mãe e se é mister que eu chore, nesses dias, possam as minhas lagrimas vertidas cair todas sem mágoa, reluzentes, como as ultimas notas de cristal desta longa canção da minha vida...

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Carma rouco

Sim, ela me pegou. Nada mais forte e mais verdadeiro como ‘A sutil flecha da beleza’ de Friedrich Nietzsche in ‘Humano, demasiado humano’ onde ele diz:

“A mais nobre espécie de beleza é aquela que não arrebata de vez, que não se vale de assaltos tempestuosos e embriagantes (uma beleza assim desperta facilmente nojo), mas que lentamente se infiltra, que levamos conosco quase sem perceber e deparamos novamente num sonho, e que afinal, após ter longamente ocupado um lugar modesto em nosso coração, se apodera completamente de nós, enchendo-nos os olhos de lágrimas e o coração de ânsias. [...]”.

Quem é que ainda não viu?!

O jeito como eu não consigo mais disfarçar, nem controlar, um suspiro me escapa quando falo o nome dela, olho pra cima e respiro fundo quando tocam o nome dela, aquece-se o meu sangue e molha-se a minha boca quando o assunto é ela. Meu carma já está rouco de tanto gritar aos ouvidos do destino, dedicou-se a escrever e a não mais gritar. Espera-se ansiosamente que o destino saiba ler.

Oh céus, que juízo esse meu, não?!
:)

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Comentário inescrupuloso:

Ainda lembrando a primeira, e incomparável, vez em que a beijei. Uma das tantas, inusitadas, situações pelas quais o meu carma costuma gritar alto aos ouvidos do destino: Nenhuma de todas as transas que eu tive foi tão pessoal quanto aquele beijo, o gosto de seus lábios e o tato de sua língua comparavam-se a um embriagante manjar.

Inescrupuloso comentário.

Inesquecível sensação.


(I.A.M² - 23/07/2009)

Amor que morre




O nosso amor morreu... Quem o diria!
Quem o pensara mesmo ao ver-me tonta,
Ceguinha de te ver, sem ver a conta
Do tempo que passava, que fugia!

Bem estava a sentir que ele morria...
E outro clarão, ao longe, já desponta!
Um engano que morre... e logo aponta
A luz doutra miragem fugidia...

Eu bem sei, meu Amor, que pra viver
São precisos amores, pra morrer,
E são precisos sonhos para partir.

E bem sei, meu Amor, que era preciso
Fazer do amor que parte o claro riso
De outro amor impossível que há-de vir!


(Florbela Espanca)